sábado, 30 de outubro de 2010

Filosofias de Vida

Há várias escolas de pensamento antigo, defendendo que a nossa felicidade depende muito daquilo que se passa na nossa mente. As nossas insatisfações e medos são causa de infelicidade, e isso está muito ligado aos nossos pensamentos e à nossa atitude positiva ou negativa face à vida. Séneca – e os filósofos estóicos em geral – é um dos grandes expoentes deste pensamento.

- Tudo passa pelos nossos pensamentos. (…) Um homem é tão infeliz quanto o seu convencimento de que o é.
Séneca, 4 a.C.-65 d. C., filósofo romano, Epístolas a Lucílio

- Não é feliz aquele que assim pensa.
Autor antigo, citado por Séneca em Epístolas a Lucílio

- Que interessa, no fim de contas, a alta posição que tens na vida, se tu próprio não gostas dela?
Séneca, 4 a.C.-65 d. C., filósofo romano, Epístolas a Lucílio

DESPREOCUPAÇÃO EM RELAÇÃO AO FUTURO, VIVENDO O PRESENTE

Para muitos escritores e filósofos antigos, o sentido da vida obtém-se na felicidade, e esta ganha-se vivendo placidamente o presente e minimizando ou ignorando os possíveis males futuros.


- A vida do louco é vazia de gratidão e cheia de medos, toda ela construída sobre os fantasmas do futuro.
Epicuro, 341-270 a.C., filósofo grego, Carta a Meneceu

- Os nossos infortúnios são curados pela grato reconhecimento do que de bom nos acontece e pelo reconhecimento de que é impossível desfazer o que está feito.
Epicuro, 341-270 a.C., filósofo grego, The Extant Remains

- Deixa cair as tuas interrogações sobre o que o amanhã te pode trazer, e considera como um lucro cada dia que o Destino te dá.
Horácio, 65-8 d. C., poeta romano, Odes

- Não te preocupes com o dia de amanhã, porque o amanhã trará consigo o que é seu. Bem basta os problemas que cada dia traz no seu regaço.
Bíblia, S. Mateus

- Pensar no que está muito para lá de nós, em vez de nos adaptarmos ao presente, é fonte de medo. A nossa consciência - a maior das bênçãos dadas à humanidade – é também a nossa maldição.
Séneca, 4 a.C.-65 d. C., filósofo romano, Epístolas a Lucílio

- Para quê remexer em sofrimentos passados, e tornarmo-nos infelizes hoje porque fomos ontem? (…) Quando os sarilhos e os problemas terminam, o natural é que fiquemos alegres.
Séneca, 4 a.C.-65 d. C., filósofo romano, Epístolas a Lucílio

- Os animais selvagens fogem do perigo que os envolve, e mal lhes escapam não mais se preocupam. Nós, porém, atormentamo-nos por aquilo que é passado e pelo que há-de vir. E assim aquilo que é uma bênção magoa-nos, pois que a memória traz de novo a agonia do medo, e a previsão antecipa-o. Ninguém confina a sua infelicidade ao presente.
Séneca, 4 a.C.-65 d. C., filósofo romano, Epístolas a Lucílio

- Há duas coisas – a recuperação dos problemas do passado e o medo dos problemas futuros – que deveriam ser eliminadas das nossas vidas: a primeira porque não nos diz mais respeito, e a segundo porque ainda o não diz.
Séneca, 4 a.C.-65 d. C., filósofo romano, Epístolas a Lucílio

- Aqueles que fruem a ocasião e o momento e vivem de acordo com o curso da natureza, não são afectados pela tristeza ou pela alegria. É o que os antigos chamam libertação da sujeição.
Tchuang-Tseu, filósofo chinês ligado ao taoísmo, século III ou II a. C., Book of Tchuang-Tseu

DESPREOCUPAÇÃO E DESAPEGO EM RELAÇÃO ÀS PREOCUPAÇÕES MATERIAIS

Várias filosofias antigas, e nomeadamente a filosofia oriental, postulam o desapego em relação às riquezas materiais e às preocupações que daí derivam.


- Todo o homem que pensa que é insuficiente o que tem, é um homem infeliz ainda que seja o dono do mundo inteiro.
Epicuro, 341-270 a.C., filósofo grego, citado por Séneca em Epístolas a Lucílio.

- Os que estão ligados às coisas materiais não podem libertar-se a si próprios.
Tchuang-Tseu, filósofo chinês ligado ao taoísmo, século III ou II a. C., Book of Tchuang-Tseu

- Ao nos vergamos aos nossos desejos materiais - um carro novo, ou uma casa nova, por exemplo -, aumentamo-los em intensidade e multiplicamos o seu número. Desejamos mais e ficamos cada vez menos satisfeitos, cada vez mais incapazes de satisfazê-los.
Dalai Lama, líder político e espiritual tibetano, Voices from the Heart

- Por isso vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida, e com o que haveis de comer e beber; ou com o vosso corpo, e o que haveis de vestir. Não é a vida mais importante que a comida, e o corpo mais importante que as roupas.
Bíblia, S. Mateus

- Olhai as aves do céu: elas não semeiam ou recolhem bens em celeiros, e no entanto o Pai celeste alimenta-as. Não sois vós mais importantes que elas?
Bíblia, S. Mateus

- Qual de vós, é capaz de acrescentar uma simples hora à vida pelo facto de se preocupar com ela?
Bíblia, S. Mateus

- Por que vos preocupais com a roupa? Vede como os lírios do campo crescem, eles que não trabalham nem fiam. Mais vos digo: nem Salomão em toda a sua magnificência se vestiu melhor que eles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo que hoje existe para logo amanhã ser queimada pelo fogo, como não fará ele mais por vós, homens de pouca fé.
Bíblia, S. Mateus

- Não vos preocupeis dizendo: "Que hei-de eu comer?"' "Que hei-de eu beber?" Ou "O que hei-de eu vestir"? Os pagãos correm atrás dessas coisas, porém o vosso Pai Celeste sabe de tudo isso, e das vossas necessidades. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo..
Bíblia, S. Mateus

POBREZA, IGUALDADE, SOLIDARIEDADE E VIDA MONÁSTICA

Numa tradição que passa por religiosos místicos como São Francisco de Assis, certas filosofias religiosas advogam o voto de pobreza, a igualdade e a vida monástica


Ordem de Santo Agostinho
1
Antes de tudo o mais, queridos irmãos, amai Deus e depois o teu vizinho, porque assim está escrito que seja.
2
O principal propósito para a vossa adesão à nossa casa é viver harmoniosamente, em unidade de mente e coração com Deus.
3
Não chames a nada teu, mas que tudo seja nosso em comunhão. Comida e roupa serão distribuídas a cada um pelo vosso superior, não igualmente por todos, porque nem todos gozam da mesma saúde, mas sim de acordo com as necessidades de cada um.

O PRAZER DÁ SENTIDO À VIDA
Filosofias de vida e sentido da vida

Epicuro, um filósofo grego do século III-IV a.C, defendeu uma filosofia de vida centrada em prazeres moderados. Alguns séculos mais tarde, os cristãos atacariam violentamente essa filosofia. Só no século XVII surge um grande autor cristão – Benedito Espinosa – a defender o direito humano ao prazer.


- O prazer é o princípio e o fim do viver feliz. Ele é o bem primeiro e inato, e é baseado nele que devemos concretizar as nossas escolhas e as nossas aversões.
Epicuro, 341-270 a.C., filósofo grego; Carta a Meneceu

- Não sei conceber o bem, se suprimo os prazeres que se apercebem com o gosto, e se suprimo os do amor, os do ouvido e os do canto, ou se coloco de lado as emoções agradáveis que as belas formas causam à vista.
Epicuro, 341-270 a.C., filósofo grego, Fragmentos

- Não são os convites e as festas contínuas, nem a posse de crianças e mulheres, nem de peixes nem de todas as outras coisas que podem oferecer uma sumptuosa mesa, que fazem doce a vida, mas sim o sóbrio raciocínio que busca as causas das nossas preferências e repulsas, e que afugenta as opiniões que levam a que a perturbação se apodere dos espíritos.
Epicuro, 341-270 a.C., filósofo grego, Carta a Meneceu

- Apenas a nossa selvagem e triste superstição pode proibir os nossos prazeres. Por que é que há-de ser mais digno satisfazer a nossa fome e a nossa sede do que livrarmo-nos da nossa melancolia?
B. Espinosa, 1632-1677, filósofo holandês, The Ethics

- Tirar o máximo prazer das coisas que usamos - sem chegarmos ao ponto de delas desgostarmos, já que tal não significaria prazer -, eis a postura do homem sábio.
B. Espinosa, 1632-1677, filósofo holandês, The Ethics

CONTROLO DAS PAIXÕES, DESEJOS, OPINIÕES E IDEAIS NEGATIVAS

Os antigos filósofos gregos e romanos da escola estóica foram os grandes defensores do princípio de que a felicidade está na sabedoria que controla paixões, desejos, opiniões, ideias.


- As perturbações derivam de opiniões e juízos insensatos.
Cícero, 106-43 a. C., filósofo e político romano, De Finibus bonorum et malorum

- É feliz o sábio que com moderação e firmeza está tranquilo e em harmonia consigo mesmo, não se consumindo com os males, futilidades e entusiasmos, nem se enervando por medo, nem ardendo de desejos e de cobiça.
Cícero, 106-43 a. C., filósofo e político romano, Tusculan disputation

- A maior das vitórias é a vitória sobre nós mesmos.
Pali Tripitaka, colecção budista de textos sagrados, Dhammapada
Devemos controlar os nossos infortúnios pela agradecida constatação do lado positivo das coisas e pelo reconhecimento de que impossível desfazer o que está feito.
Epicuro, 341-270 a.C., filósofo grego, The Extant Remains

Lucrécio, 98-55 a.C, poeta e filósofo romano, De rerum natura
A felicidade não é um ideal da razão mas sim da imaginação.
E. Kant, 1724-1804, filósofo alemão, Fundamental Principles of the
Metaphysics of Ethics

SENTIDO DA VIDA E CONTROLO DAS PAIXÕES E DOS DESEJOS DO CORPO

Os antigos filósofos estóicos foram defensores mais destacados do princípio de que devemos controlar os desejos do corpo e das paixões como forma de nos libertarmos. Mas não só: filósofos como Sócrates e as filosofias orientais também advogam este princípio.


- Reduzindo ao máximo os meus desejos, estou mais próximo dos deuses.
Sócrates, 470-399 a.C., filósofo grego, citado por Diógenes Laércio em Lives of Eminent Philosophers.

- É ilusão alimentar cem cessar os desejos da nossa alma ingrata, cobrindo-a de bens sem nunca a poder saciar.
Lucrécio, 98-55 a.C, poeta e filósofo romano, De rerum natura

- Não é o corpo que é insaciável. O desejo ilimitado que nos condena ao supérfluo, à insatisfação, à infelicidade, é uma doença da imaginação.
A. Compte-Sponville, filósofo francês, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

A ELIMINAÇÃO DO SOFRIMENTO PELO DESAPEGO EMOCIONAL

Várias filosofias de vida orientais – correntes budistas, taoistas e hinduístas - defendem o desapego emocional e a negação de sentimentos como via de evitar o sofrimento. Certas correntes defendem formas de existências quase vegetativas, como forma de evitar a dor.


- O nosso sofrimento é proporcional à nossa ligação às coisas deste mundo.
Thomas Mann, 1875-1955, escritor alemão, The Confessions of Félix Krull
Aquele que procura a felicidade, deve extirpar de si a flecha da aflição, do desejo, do desespero.
Pali Tripitaka, colecção budista de textos sagrados, Sutta-Nipata

- O homem sábio deve recusar a cólera, o orgulho, a decepção, a inveja, o amor, o ódio, a desilusão, a concepção, o nascimento, a morte, o inferno, a existência animal, e a dor.
Jaina Sutras, Acaranba Sutra, textos religiosos indianos do século VI a. C., e depois

- A mente do homem perfeito é como um espelho. Ele não distorce a sua resposta às coisas. Ele responde às coisas mas não penetra na sua existência. Deste modo ele pode lidar com essas coisas sem se magoar.
Tchuang-Tseu, filósofo chinês ligado ao taoísmo, século III ou II a. C., Book of Tchuang-Tseu

- Não queiras ser famoso. Não queiras ser um armazém de regras. Não queiras apreender a função das coisas. Não queiras ser o mestre do conhecimento que manipula. Procura compreender o mais algo degrau das coisas, viajando a um nível em que não há sinais, exercitando plenamente o que recebeste da natureza, negando tudo o que há de pessoal e subjectivo em ti. Numa palavra: procura o vácuo sem ideias.
Tchuang-Tseu, filósofo chinês ligado ao taoismo, século III ou II a. C., Book of Tchuang-Tseu